sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Last Ghost Standing (Gwai Ching Lei Tai Hei) – 1999

Sinopse: Na véspera do Ano Novo de 2000, um cinema tem sua última sessão. Coisas estranhas ocorrem quando forças malignas ficam insatisfeitas com a qualidade dos filmes modernos.


Direção: Siu-Hung Chung


Elenco: Simon Lui, Sherming Yiu, Francis Ng, Pinky Cheung









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Link Direto (Legenda Exclusiva)


Comentário: O que sempre chamou a atenção e me tornou devoto do cinema de Hong Kong foram sua energia e criatividade. Não importa o gênero ou dinheiro envolvido, sempre haverá algo, seja numa mísera cena ou alguma mudança de tom brusca gigantesca... a certeza invariável é de iminentemente bater uma empolgação que supera qualquer filme realizado em qualquer outra parte do mundo. 
Obviamente que mesmo uma produção de baixo orçamento como essa, em uma locação com equipe pequena de amigos, iria fazer minha cabeça, porque simplesmente transborda de energia hongkonguiana da qual sou submisso, mesmo praticamente não possuindo um enredo e apostando num humor extremamente juvenil. O encantamento que esse proporciona é o de ser espancado incessantemente por tudo que é jogado na nossa cara a cada segundo. Para ter uma noção do que estamos lidando, digamos que a introdução transpira ares poéticos dignos de Wong Kar-Wai, e esse tom progressivamente vai ser distorcido a ponto de surgir um sósia do Jackie Chan caçador de fantasmas.

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

A Ilha das Almas Selvagens (Island of Lost Souls) - 1932

Sinopse: Náufrago acaba em ilha habitada por monstruosidades, híbridos entre humanos e animais criados pelo maligno Dr. Moreau. Adaptação do clássico de H. G. Wells, mas bastante superior a este porque, ao contrário do romance, aqui tem uma gostosa.

Direção: Erle C. Kanton

Elenco: Charles Laughton
Richard Arlen
Leila Hyams
Bela Lugosi
Kathleen Burke







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Comentário: Não consigo me imaginar como espectador na década de 1930, mas se naquela época o pessoal se cagou achando que o trem ia sair da tela no filme dos Lumiére, deve ter rolado desmaios e ataques cardíacos na sessões da "Ilha das Almas Selvagens" porque essa porra se mantém genuinamente aterrorizante até para os padrões modernos. Nada de sustos explícitos e essas merdas, mas o visual das criaturas (para os ignorantes que nunca leram a obra seminal do Welles, animais selvagens mutilados e condicionados violentamente até tornarem-se humanoides) choca pelo grotesco, somando-se também seus sons - cuidadosamente elaborados misturando, invertendo e distorcendo grunhidos de animais com dialetos nativos -, que resultam em uma sensação desconcertante.
    As situações e como é organizada a sociedade das aberrações são fiéis ao livro, com a bem-v inda exceção da Mulher-Leopardo. Você pode evidentemente imaginar que ela foi concebida enquanto apelação rasteira para atrair o público masculino, mas, intencionalmente ou não, sua presença adiciona uma nova dimensão às provocações originalmente propostas por Wells. Excluindo a frescuragem vitoriana, esse elemento voluptuoso (o plano do Moreau é fazer o protagonista transar com a dita cuja, com a intenção de provar ser capaz de criar um ser humano completo, ou seja, que sinta até tesão - pois é -, enquanto paralelamente induz o Homem Gorila a estuprar a mocinha com o mesmo intento) aproxima o debate sobre ética científica da sórdida realidade mundana, muito mais mesquinha que qualquer autor poderia supor. Não à toa, esse foi um dos primeiros filmes banidos e censurados mundo à fora, sendo vetada sua exibição nos cinemas suecos até hoje, por exemplo. Tamanha repercussão levou à elaboração do infame Código Hays, que moralizou o cinema norte-americano até a década de 1960.
    Além do elemento sexual, a obra também se eleva sobre a narrativa de Wells pela presença do Charles Laughton, cuja interpretação hipnótica enche os olhos, esbanjando carisma e alegria em ser um filho da puta - tornando-o facilmente um dos maiores vilões da história do horror. Ah, e tudo isso tem só 1h10min de duração.


PS: "A Ilha das Almas Selvagens" foi a primeira de dezenas de adaptações da "Ilha do Dr. Moreau" - e também a única boa - mas essa é mais uma oportunidade de recomendar o documentário "Lost Soul - The Doomed Journey of Richard Stanley's Island of Dr. Moreau", sobre um dos fracassos mais espetaculares e fascinantes dessa coisa que chamamos de arte.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Assassino Invisível (The Town That Dreaded Sundown) - 1976

Sinopse: Serial killer mascarado aterroriza pequena cidade no Arkansas na década de 1940. Ao longo de anos de investigações infrutíferas, o medo constante começa a ter efeitos na comunidade e nas suas instituições.

Direção: Charles B. Pierce

Elenco: Ben Johnson
Andrew Prine
Dawn Wells
Jimmy Clem
Jim Citty







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Comentário: Um slasher geriátrico e esquecido, mas conceitualmente muito superior à maioria das obras que o sucederam. "The Town That Dreaded Sundown" (o título brasileiro é muito ruim tomar no cu) é uma produção de fundo de quintal - mesmo que bastante convincente na sua ambientação - que mirava o público dos drive-ins (aquela coisa, cenas de barbárie pontuais pulverizadas ao longo de blocos chatos de falatório pros casais terem tempo de darem uns amassos, prática que vocês leitores desconhecem) e, mesmo com tão poucas pretensões, foi capaz de influenciar toda uma vertente de filmes de psicopata. "Zodíaco" e "Memórias de um Assassino", por exemplo, definitivamente tiraram parte de sua inspiração daqui graças ao estilo documental ambicioso adotado por Pierce (que tem diversos mockumentaries no corpo da obra) e pelo tom frio, clínico e pessimista que permeia a narrativa.
    É muito moderno pois está mais interessado nos efeitos de um assassino que parece ser tão onipresente quanto sádico no psicológico da comunidade rural de Texarcana, do que propriamente nos seus atos. Nesse sentido também há um pouco aqui de "Onde os Fracos Não Tem Vez", porque o coração da narrativa se concentra nos esforços do Capitão Morales, um Texas Ranger bonachão saído direto do velho oeste, cujo pragmatismo é estilhaçado ao caçar uma novidade do futuro que se avizinha: o assassino que age aleatoriamente, não por vingança, paixão ou lucro - algo que definitivamente ecoa no Tommy Lee Jones do magnus opus dos Coen, paralisado ante a brutalidade que ele é incapaz de compreender. O final miserável (tanto aqui quanto na realidade que inspirou a trama, o assassino jamais foi pego) também era inesperado para a época. Apesar de todo o enfoque sociológico (chato), a violência em si, mesmo que esparsa, é nada menos que memorável. É daquelas carnificinas raras no estilo do "Massacre da Serra Elétrica", completamente seca, bruta e desesperadora. E tem espaço aí também para inovação: em uma cena particularmente grotesca o assassino ressignifica a função de um trombone, e não darei mais detalhes. 
    Nem tudo são flores, todavia. O ritmo é lerdo demais (tem encheção de linguiça mesmo durando 1h20), o elenco é muito pior do que se espera e o senso de humor é tão lamentável quanto (tem policial alívio cômico se disfarçando de mulher, sendo a piada aí a insinuação dele ser homossexual, algo sempre hilário), mas na lembrança o que "Town That Dreaded Sundown" tem de bom deixa uma marca maior do que seus defeitos.

    Teve uma continuação/remake de 2014 sobre a qual não sei opinar.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

O Enigma do Mal (The Entity) - 1982

Sinopse: Mulher fica sendo estuprada por fantasma. Não é de tão mau gosto quanto soa. O texto no fim do filme diz ser baseado em fatos reais.

Direção: Sidney J. Furie

Elenco: Barbara Hershey
Ron Silver
David Labiosa
George Coe
Margaret Blye








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Comentário: Ouvi dizerem esses dias (referente ao novo "Hellraiser", que é uma bosta), que se o "Alien" fosse feito hoje, seria pela mão de um diretor indie novato e a trama seria uma grande metáfora sobre "a Ripley superando o trauma do divórcio dos pais ou algo assim". "The Entity" (do diretor do "Super-Homem 4") é a pura antítese das tendências contemporâneas do horror, onde aparentemente qualquer filme sobre um cara com mascara esfaqueando gente tem que ser sobre empoderar alguém. Isso porquê, do vasto catálogo de clássicos oitentista, esse teria o enredo mais psicológico de todos (até pela suposta origem real dos fatos... mesmo que o filme abandone essa suposta pretensão com gosto no final): a mulher, vítima de uma criação abusiva vivendo o sufocante subúrbio americano, que começa a ser sexualmente atacada por uma "entidade".
    A narrativa se desenrola entre os ataques e sessões de terapia, onde um psicólogo tenta dar um contexto freudiano para essas manifestações. Ao contrário do que se esperaria, o suspense não provém da dúvida (ela está sofrendo de surtos psicóticos ou é mesmo algo sobrenatural?), pois o filme estabelece imediatamente que sim, o além aqui é real. Portanto, a angústia do espectador enverda por outro caminho, o de acompanhar a protagonista tentando provar à todo custo que não está louca. É até irônico, porque muitos frescos atacam esse filme - não sem alguma razão - por sua misoginia intrínseca, mas ela se manifesta menos na visceralidade dos abusos e mais no objeto da narrativa, muito mais interessada na figura do psicólogo tendo que confrontar seus paradigmas acadêmicos do que o sofrimento da vítima.
    Eventualmente os fenômenos se conciliam com a ciência no terceiro ato clássico dos parapsicólogos investigando a aparição, cuja abordagem aqui é superior à filmes semelhantes. Ao contrário do "Poltergeist" (que apesar de ter sido lançado no mesmo ano, tecnicamente é uma cópia desse aqui porque "A Entidade" teve seu lançamento adiado desde 1981), por exemplo, não há mediunidade envolvida. Pelo contrário: é tão científico que beira o sci-fi, chegando ao cúmulo de um clímax mirabolante onde cientistas tentam capturar o fantasma com nitrogênio líquido (spoiler: funciona mais ou menos).
    Pela trama e pelo estilo cinematográfico da década de 80, é fácil querer distância (ou, no caso dos nossos leitores, ser atraído) pelo aspecto sórdido e imundo que transpira daqui, mas "The Entity" surpreende por tratar o material com uma dramaticidade respeitosa, sem deixar de lado o horror físico. Não à toa, dizem que é um dos filmes de terror favoritos do Scorsese, e essa sobriedade é particularmente inesperada graças a declarações do próprio diretor, que dizia não acreditar em nada disso e que as pessoas na qual a história foi baseada eram todas umas "drugged-out wackos". 

E agora pensem vocês se isso daqui tivesse sido produzido na Itália...

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Terrifier - 2016

Sinopse: Palhaço mímico mata todo mundo.


Direção: Damien Leone


Elenco: Jenna Kanell, Samantha Scaffidi, David Howard Thornton







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>> Link Magnético


Legenda


(Se quiserem ver os curtas e o longa picareta que antecedeu o Terrifier, pega aí o LINK e a LEGENDA)


Comentário: Tá todo mundo falando de Terrifier 2 (gente desmaiando, aquela coisa toda). E quem sabia que existia um primeiro?... E sabe por quê? Porque o primeiro é qualquer coisa mesmo. Mas decidimos proporcionar essa ótima oportunidade aos digníssimos leitores de se apropriarem do complexo e coerentíssimo cânone desse grande personagem, o palhaço mímico. 

Bom, de qualquer forma dá pra dizer que saiu melhor que encomenda esse vilão, afinal, palhaço e mímico são das mais miseráveis e patéticas formas de arte que existem. Esse pelo menos elevou um pouco as duas categorias desenvolvendo as habilidades de matar todo mundo de forma grosseira e esfregar merda (?) pelas paredes de pizzarias. 

Falando sério, até que o personagem é espertinho, mas muito mais em virtude da degradação mental do criador, o tal de Damien Leone, filho do saudoso Sérgio Leone (brimks, não é não)

Pra começar: esse personagem surgiu nuns curtas do Leone aí: o primeiro, The 9th Circle, de 2008, é até bem decente, tem boas intenções e pretensões, ecos lá de Hellraiser (versão esgoto), mas o personagem em si é bem irrelevante nessa primeira empreitada. Aí lá em 2011 ele lançou o curta Terrifier, que é bem genérico, mas já apresenta uns traços sórdidos do personagem. 

Aí a partir daí acho que o Leone foi é ficando maluco mesmo. Lançou em 2013 um longa chamado All Hallow’s Eve. Só que saca a picaretagem: esse longa aborda duas crianças e uma babá encontrando um VHS na noite de halloween. Decidem obviamente assistir e adivinha: tem lá os dois curtas do Leone nesse found footage. Baita estratégia. Já que ninguém tinha feito questão de ver os curtas dele, ele lança um longa com os curtas no meio. Mas aí ninguém viu o longa também.

O detalhe é que o All Hallow's acaba com o palhaço decapitando as duas crianças, dando início a essa fase saudável dele.

Daí enfim ele lança o que agora deve ser uma franquia de vez, esse longa do Terrifier, em 2016. O negócio é chato. Lerdo demais mesmo. E o visual dos filmes dele incrivelmente só foi piorando conforme os recursos aumentam, realmente um mistério. Mas tem boas coisas sim, o sadismo da parada vai pra outro patamar, diverte mesmo. E o palhaço enfim se encontra como personagem, porque definitivamente parece refletir o estado mental do diretor: ultrapassa qualquer limite do bom senso e se diverte porque sabe que é imparável, como o próprio Leone, afinal, mesmo todo mundo se negando a ver os filmes dele, ele persistiu!

Tem uma cena em específico que é bem simbólica: depois de perseguir a suposta final girl por um bom tempo, o jogo vira pro palhaço (Art é o nome dele.....). Ela dá umas apunhaladas no Art que, aparentemente acanhado, fica de frente pra enfrentar a agora imponente final girl. Eis que do nada o Art puxa uma pistola e dá uns tirambaços nela. 

O que deu pra ver da famosa cena do Terrifier 2 que tão falando é que o Leone só chutou o balde mesmo, cedeu totalmente à perversão e entendeu tudo o que nós virjões gostamos né gente? Violência em profusão, para rirmos enquanto cruzamos nossos braços sobre nossas tetas masculinas. Mas o sorriso que estampamos (logo acima da barba por fazer que preenche nossa papada) é de superioridade, afinal, a gente já viu tanto filme violento.... pra nós isso não é nada!  E com orgulho, poderemos dizer: "Tem gente desmaiando? Pfff, eles precisam ver então (inserir nome de filme doentio que ninguém precisa ver)".


terça-feira, 11 de outubro de 2022

Olhos de Fogo (Eyes of Fire) - 1983

Sinopse: No início da colonização americana, reverendo pilantra é condenado à forca por poligamia em um pequeno assentamento. Ele consegue escapar com sua trupe e familiares, mas ao atingirem uma área remota na floresta começam a ser hostilizados por uma entidade demoníaca.

Direção: Avery Crounse
 
Elenco: Dennis Lipscomb
Guy Boyd
Rebecca Stanley
Sally Klein
Karlene Crockett

 
 
 
 
 
 
Download:
 
 
 
 
OU
 
 
Opções de link direto no blog dos nossos amigos, Space Monster, que é bem melhor que esse aqui e segue vivo e forte.
 
 
Obs: As legendas brasileiras funcionam exclusivamente para essa versão, oriundo do VHS americano e relançada aqui em DVD. Existe um corte final recentemente lançado em blue-ray (cuja qualidade não é lá muito melhor não) que difere ligeiramente dessa versão. As principais diferenças são duas: naquela, as meninas estão narrando os acontecimentos para um padre, e há novamente um subtexto de disputa espiritual, e no final, que ao invés da capenguice daqui do soldado aparecer possuído, termina com a jovem irlandesa se transformando em uma fada com fantasia da 25 de março. Fora isso, a essência se mantém idêntica.


Comentário: Misturando faroeste e folk horror, "Eyes of Fire" é uma daquelas raridades atmosféricas que conseguem criar todo um universo particular com o mínimo disponível. É muito excêntrico na sua narrativa, começando em algo que soa como "As Aventuras do Padre Comedor e sua Gangue", sendo expulso da cidade pelos chifrudos e escapando ileso de diversas trapalhadas por sua astúcia, para lentamente se transfigurar em um terror grotesco, que angustia tanto por sequências imagéticas que inspiram medo genuíno quanto pela lentidão que toma conta. É muito difícil elaborar melhor aqui o que torna essa obra única pelo fato de suas qualidades serem primordialmente sensoriais, mas basta dizer que, apesar de imperfeito, é um filme que certamente inspirou um legado, desde obviedades como "A Bruxa" (parte quase exatamente do mesmo pressuposto e da mesma ambientação; os personagens na fronteira da civilização onde sua fé é testada pelo desconhecido) até Lynch (o bichão do mato parece muito o mendigo surpresa do "Cidade dos Sonhos" e as criaturas se movem exatamente igual aos lenhadores do "Retorno").

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Hell House LLC - 2015

Sinopse: Uma documentarista investiga a misteriosa tragédia que ocorreu em um parque temático de halloween.


Direção: Stephen Cognetti


Elenco: Gore Abrams, Alice Bahlke, Danny Bellini







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1080p (1,4GB) >> Link direto 


Comentário O subgênero "filmagem encontrada", quando acertado, se torna aquela experiência imersiva que deveria sempre justificar o formato. Hell House LLC é desses, que consegue criar uma narrativa convincente para o uso dessa linguagem e emprega bem os elementos de horror com sustos bem orquestrados.

O filme explora diferentes aspectos do subgênero em três linhas temporais distintas: a clássica do falso documentário pós-evento, com equipe investigando; os responsáveis pela atração temática que documentam a criação do local e os vídeos upados na internet pelos visitantes do hotel no dia que deu zica. O resultado é uma rima visual que funciona por meio do complemento entre os formatos.

A maior sacada é utilizar uma atração temática de horror como centro da narrativa, brincando com a ideia de desorientar o espectador entre o que é "horror" real ou o que pertence ao espetáculo. É um dos filmes raros modernos que consegue ter personalidade suficiente para estabelecer uma mitologia própria interessante.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

História do Oculto (Historia de lo Oculto) - 2020

Sinopse: Às vésperas de uma crise política e econômica na Argentina (mais uma, no caso), um programa jornalístico em sua última edição tenta expor a relação de autoridades empresariais e do governo com uma seita satânica. Nos bastidores, estranhos fenômenos começam, repórteres desaparecem e o fim do mundo se aproxima.

Direção: Cristian Ponce

Elenco: Germán Baudino
Nadia Lozano
Héctor Ostrofsky
Agustín Recondo
Lucia Arreche





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Comentário: Um daqueles experimentos narrativos que fascinam e mantém certa esperança - mesmo que vã - no futuro do cinema. "História do Oculto" tem os recursos e o jeitão de um filme de conclusão de faculdade de audiovisual, ou ainda, de filme feito pra streaming (acho que tem na Netflix inclusive kk), mas aqui essas capenguices e pretensões juvenis são todas canalizadas positivamente em favor do ritmo e da atmosfera. São praticamente duas locações, um punhado de personagens e orçamento inexistente, mas o começo frenético e a ambientação convincente são imediatamente imersivas (nem que seja pela desorientação), e é recompensador lentamente ir juntando as peças e entender o que está em jogo. É um thriller político na sua estrutura, mas que de forma calculada e segura adentra cada vez mais no horror cósmico... e como redator desse fardo que chamo de blog, acostumado a filtrar muita tranqueira refinando só a nata do cinema para vocês, devo confessar que há tempos um filme não me oferecia sustos sinceros e angústia genuína quanto esse.
    A trama é bem bolada, elevada por um estilo reminiscente do Borges (é afinal de contas, infelizmente, um filme argentino), na ideia de sofisticar as narrativas pulp e folhetinescas, até inevitavelmente extrapolar para algo no escopo do Carpenter ("Príncipe das Sombras" e "À Beira da Loucura" vem à mente), em um final para o qual certamente vários leitores torcerão o nariz - mas que é bem espertinho apesar de tudo. "História do Oculto" é acima de tudo uma alegoria sobre totalitarismo, sobre os rumos da política latino-americana travados diretamente no inferno e de como nosso legado é um de repetições trágicas, farsescas, ad infinitum em ciclos de poder e opressão... mas sei que o nosso leitor é meio burro e tal, então basta dizer que dá vários cagaços.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

The Seventh Curse (Yuan Zhen-Xia yu Wei Si-Li) - 1986

Sinopse: Durante expedição nas selvas da Tailândia em busca de uma erva que poderia curar a AIDS, o heroico Dr. Yuan se depara com uma tribo isolada cujo xamã maligno está prestes a sacrificar uma virgem. Ele salva a jovem, mas no processo é amaldiçoado. Um ano depois, a maldição começa a se manifestar, e para sobreviver ele precisa juntar seus amigos e retornar à selva, em um embate derradeiro com o xamã.

Direção: Ngai Choi Lam

Elenco: Chow Yun-Fat
Siu-Ho Chin
Maggie Cheung
Ken Boyle
Hung Chen




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Obs: Já existe uma legenda em português para esse filme, mas trata-se de uma tradução da versão americana - dublada e severamente mutilada para agradar os conservadores filhos da puta e tudo mais. Essa é a primeira tradução para a versão chinesa sem cortes, com dez minutos a mais de pura nojeira. 


Comentário: Do diretor do "História de Ricky" (e muitas outras bostas), "The Seventh Curse" encapsula perfeitamente todo o clima aventuresco da Sessão da Tarde oitentista, mas da perspectiva asiática. Ou seja, cheio de elementos grotescos e perturbadores - porém sem jamais perder a inocência. Copia descaradamente elementos de diversos sucessos hollywoodianos (mais notadamente, "Indiana Jones", de onde roubou a cena da bola rolando na caverna sem a menor cerimônia), e talvez por tentar competir com os americanos, se distancia de diversas outras bizarrices de Hong Kong ao ser genuinamente divertido e coerente na sua estrutura e lógica interna. Os personagens são todos simpáticos, as cenas de ação são inventivas e empolgantes e, ao menos no que diz respeito à ambientação, é supreendentemente bem trabalhado, disfarçando com sucesso o orçamento precário. 
    Claro que a graça tem a ver com tudo aquilo que os chineses conseguem fazer - graças ao seu sistema de classificação etária onde filmes pornôs e de ação eram avaliados no mesmo patamar - com as quais os americanos jamais se safariam. Ou seja, é o "Indiana Jones" mas cheio de nudez gratuita, violência brutal e nojeiras asquerosas (e se algum filme do Indy terminasse com um feto malígno dando porrada no alien, que é uma coisa que acontece aqui). Por exemplo, quando os personagens na selva caem nas armadilhas, é mostrada a consequência física dela nos mínimos detalhes (em uma cena memorável uma pessoa simplesmente é repartida ao meio), ao invés da câmera cortar para a reação assustada de seus protagonistas para fugir do explícito. Noutro momento, a sidekick (Maggie Cheung, como um alívio cômico engraçado de fato, pra variar) faz mais uma trapalhada - que ao invés de risos resulta em um inocente tendo sua cabeça dilacerada por um tiro, sem que isso jamais pese contra ela narrativamente. 
    "The Seventh Curse" encontra um equilíbrio perfeito entre os maniqueísmos ocidentais e o asqueroso do cinema asiático em uma aventura que empolga de forma genuína (e dura só 1h20!). A coisa toda é tão simpática que eu definitivamente gostaria de ver toda uma franquia derivada do Dr. Yuan e seu amigo fumador de cachimbo enfrentando novos vilões - apesar de já haver uma sequência que não repete elenco, roteiristas e direção e que definitivamente é um lixo.

    Em uma nota separada - que não se aplica exclusivamente à esse filme - amo o logo da Golden Harvest e ele sempre me deixa com a alma quentinha.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

A Vingança do Espantalho (Dark Night of the Scarecrow) - 1981


Sinopse: Por acreditarem que um retardado é culpado pela morte de uma menina, quatro eleitores do Bolsonaro —entre os quais, o pedófilo retraído e o capiau que provavelmente transa com animais — acabam matando o coitado. Ao descobrirem que na verdade ele havia salvo a menina de ser morta por um cachorro (um pequeno engano de leitura), encobrem o crime como legitima defesa (e agora, reaças? e os direitos humanos?????) e, por falta de provas, são absolvidos no julgamento. Porém, alguém começa a persegui-los e matá-los, um a um (quem será???).

Direção: Frank De Felitta

Elenco: um monte de velho, uma menina e um retardado


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Comentário: A Vingança do Espantalho é daqueles que faz parecer que não é tão difícil produzir um bom terror. É baratinho, simples, eficiente e redondinho.

Foi feito para a tv, então tem aquele aspecto pobretão de tv, mas também é o que o faz charmoso e sem tanta pretensão comercial. Como nesse país miserável a gente só vive de analogias políticas, descrevamos o enredo como: quatro bolsonaristas matam um retardado mental (clinicamente diagnosticado e não outro bolsonarista rsrs). Obviamente, com uma motivação reaça, irracional e impulsiva. E que, naturalmente, se mostra injustificada. A partir daí se aplica a lógica do título (em português, o original não faz muito sentido), mas não vou explicar o que o espantalho tem a ver com a coisa toda, mas até que é interessante a ideia. 

Dos protagonistas/antagonistas, o Charles Durning se sobressai, atuando como o carteiro vigilante que é um legítimo sujismundo, que passa o filme inteiro vestindo o uniforme. Os demais estão em harmonia com seus papeis, mas de um jeito até desconfortável porque quase parecem estar interpretando a si mesmos (como se o casting tivesse sido selecionado direto de Nova Pádua)

O detalhe mais interessante é que o filme usa toda a ambientação ruralista como elemento para a engenhosidade das mortes, que não têm lá muito impacto em termos de violência, até por ser tudo meio offscreen, mas isso não incomoda não.

Agora, poderia ser melhor? Certamente. Por pouco o filme não se aprofunda como um terror genuinamente psicológico, porque por um longo tempo deixa no ar se há de fato a participação efetiva do espantalho nas mortes, cria com isso um mistério (misteriozinho) e ameaça tons e temáticas mais sofisticadas, como paranoia e culpabilidade. Claro que em momentos-chave se entrega ao conforto do slasher, mas um bom slasher!

Foi dirigido pelo Frank De Felitta, mais conhecido como escritor (Stephen King dos pobres), e que saiu bem na função no que foi uma de suas únicas investidas como cineasta.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Estranho Poder de Matar (The Shout) - 1978

Sinopse: Durante um jogo de críquete num sanatório, o paciente Crossley (Alan Bates) relata uma estranha história sobre o profissional de som Anthony Fielding (John Hurt) e sua esposa (Susannah York). Crossley teria vivido certa época com os aborígenes australianos, onde aprendeu magia, e a utiliza para dominar a esposa de Anthony. Entre suas habilidades há um grito fatal, que tem o poder de matar qualquer um que esteja ao alcance de sua voz.

Direção: Jerzy Skolimowski

Elenco: Alan Bates
John Hurt
Susannah York





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Comentário: Há quem diga que The Shout é ame ou odeie. Não concordo. Acho que é mais indicativo do que subjetivo. No caso, só pessoas burras não apreciam uma das obras mais injustiçadas do cinema. Inquietante o tempo todo, o tom é de um pesadelo, daqueles de dar joelhada nas costas da esposa e resmungar em posição fetal enquanto dorme (não que o leitor virgem vá saber o que é isso, então dá sim pra adaptar para "joelhada nas costas da mãe enquanto dorme com ela"). 

Imagine o Kubrick dirigindo um filme de baixo orçamento roteirizado pelo Lynch. A figura do Crossley, o antagonista, fascina. Em outras palavras, o filme trata de um talarico que após aprender magia com aborígenes australianos decide testar seus truques de sedução com esposas de caipiras britânicos. Mas o feiticeiro na verdade aqui é o Skolimowski, que harmoniza som e imagem de maneira indubitavelmente consciente, desconcertante e hipnótico. A cena do grito é convincente e aterrorizante, por exemplo. A partir daí o filme vai perdendo gradativamente o fôlego, mas o que havia conquistado já era suficiente. Citando novamente, é a essência do cinema de David Lynch, e isso quando o Lynch estava no pleno domínio de sua linguagem (o que ocorreu ali no Inland Empire).

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Canibais do Apocalipse (Apocalypse Domani) - 1980

AKA Cannibal Apocalypse
AKA Invasion of the Flesh Hunters
AKA Cannibals in the Streets 
 
Sinopse: Forçados a se alimentar de carne humana quando prisioneiros no Vietnã, soldados americanos voltam para casa com dificuldades para deixar o exótico cardápio para trás.
 
Direção: Antonio Margheriti
 
Elenco: John Saxon
Elizabeth Turner
Giovanni Lombardo Radice
Tony King
Wallace Wilkinson

 
 
 
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OBS: Sim sim tá enorme o tamanho pro leitor com interner discada do Bol, mas além de ser o único arquivo com seeds, a imagem está cristalina, perfeita para ver a carnificina nos mínimos detalhes.
 
 
 
Comentário: Nos primeiros cinco minutos disso aqui, um cachorro-bomba se explode e uma menina é incinerada até a morte para ser então prontamente devorada por dois canibais (que, naturalmente, começam o banquete pelos seios) - tudo conduzido por aquelas trilhas com sintetizador de fundo de garagem que a gente tanto gosta e tenta imitar. Tendo a trama em mente, é fácil cair na tentação de pensar que trata-se de uma alegoria sobre a guerra e seus traumas, na mesma medida que o primeiro "Rambo" é, por exemplo, mas se existe algum significado nesse sentido ele é completamente acidental. "Cannibal Apocalypse" (ou qualquer um dos outros duzentos títulos) é o mais puro exploitation italiano, pegando carona nas primeiras obras da Nova Hollywood sobre a Guerra do Vietnã como desculpa para um festival gloriosamente estúpido de barbaridades. A certa altura inclusive o filme abandona suas rasas pretensões para despirocar de vez e se assumir como um mal disfarçado filme de zumbi pós-apocalíptico (para nossa alegria).

    O ritmo é frenético, o gore é de respeito, os personagens secundários são divertidos, o clímax nos esgotos põe "O Terceiro Homem" pra comer capim, tem um personagem que se chama Charles Bukowski (e se você já não ia muito com a cara do poeta, agora não vai mais aguentar ouvir o nome dele) e o plot twist final é de uma obviedade dolorosa. Ou seja, tirando pelo cachorro que explode, há algo aqui para agradar toda a família. Mesmo sem jamais ter sequer sido indicado ao Oscar, Margheriti deixa Cimino no chinelo, pois aqui transmite os mesmos sentimentos de seu "Franco Atirador", mas na exata metade da duração e com o exato dobro de peitões.


segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Alerta Noturno (Butcher, Baker Nightmare Maker) - 1981

AKA Night Warning

 
Sinopse: Criado por sua tia após perder os pais em um bizarro acidente de carro quando criança, Billy está prestes a se formar e sair de casa. A perspectiva dessa mudança, contudo, desperta certos instintos sexuais e homicidas em sua tia.

Direção: William Asher

Elenco: Jimmy McNichol
Susan Tyrrell
Bo Svenson
Julia Duffy
Bill Paxton




 
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Comentário: Aqui está um filme que não quer desperdiçar seu tempo; já começa com uma morte brutal nos primeiros segundos (copiada na cara dura pelo "Premonição" aliás) e daí pra frente segue surtado e caótico até o último frame, na sua enxuta e exata 1h30 de duração. O gore é num todo bastante pesado quando comparado a outros slashers oitentistas, mas o que torna a coisa muito mais divertida aqui é a atmosfera sexualmente grotesca e desagradável. É um mundo onde todos os adultos são tarados, só faltando lamber os beiços vendo jovens suados em vestiários ou fazendo as insinuações eróticas mais doentias, dignas de filme pornô japonês, sem a menor cerimônia.
 
    É essa a América de Ronald Reagan - citado já na abertura para não haver dúvidas quanto ao tema -, com seus subúrbios prontos para explodir em histeria sexual e oprimidos pela força policial mais comicamente homofóbica da história do cinema. Menos celebrado do que outros notórios video nasties, esse "Psicose" às avessas é certamente um dos seus exemplares mais interessantes.