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sexta-feira, 1 de março de 2024

Em Rota de Colisão (Stuck) - 2007

Sinopse: mendigo preso no para brisa de carro

Direção: Stuart Gordon 

Elenco: Mena Suvari
Stephen Rea
Russell Hornsby
Rukiya Bernard
Carolyn Purdy-Gordon











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Comentário: O último do mestre Stuart Gordon está bem longe da nojeirada que o consolidou, mas o que diferencia esse suspense fuleiro é, justamente, sua bagagem do body horror, que "eleva" (mas não muito) o que seria, na mão de qualquer outra pessoa, um Supercine esquecível. A trama baseada em fatos reais é isso aí mesmo, o mendigo fica preso no para brisa de uma cracuda - como está maravilhosamente ilustrado nesse cartaz digno de caixa de dvd de balaio das Americanas -, e a história se desenvolve como uma espécie de filme de sobrevivência (da perspectiva do mendigo, Stephen Rea, ator de filmes muito melhores, que entrega tudo de si) e uma comédia de erros sem graça (da perspectiva da cracuda e seu namorado tentando sem sucesso resolver a situação enquanto os dias passam). A mão do Gordon, contudo, é sentida especificamente nos momentos em que é detalhado o estado fisiológico da vítima, momentos pontuais que dão um tempero especial por serem dolorosamente gráficos (em uma cena particularmente chocante o coitado tenta tirar o um pedaço de carro que perfura seu abdômen, com resultados porcos). É um filme que não funciona plenamente em nada do que se propõe, mas que é assombroso o suficiente para ser uma despedida digna do Gordon.

Aproveitando o ensejo, fica aqui a recomendação também de outro da fase tardia do Gordon, "Edmond", sobre a jornada de empoderamento de um bolsonarista retardado (pleonasmo) cuja conclusão lógica se reflete também na vida real.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Harry Chegou Para Ajudar (Harry, un ami qui vous veut du bien) - 2000


Sinopse: Num posto de beira de estrada, Michel (Laurent Lucas) é abordado por Harry (Sergi López), um homem de quem Michel não se lembra mas que afirma ser um velho colega de escola. Harry segue até onde Michel e sua família vão passar as férias e começa a se aproximar. Aí fica uma coisa estranha, se quiser saber assista.

Direção: Dominik Moll

Elenco: Laurent Lucas, Mathilde Seigner, Sergi López, Sophie Guillemin







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Comentário: A essa altura você já deve ter visto o 'Speak no Evil', filme de terror europeu de 2022 feito na medida pro leitor burro médio desse blog (se não viu, vá procurar em outro lugar, não é difícil achar). O "Harry..." tem uma premissa relativamente semelhante: dois casais se encontram aleatoriamente e se entrosam, permitem a aproximação íntima e a partir daí o negócio sai do controle gradativamente. O que muda é que enquanto o Speak no Evil enfatiza muito o constrangimento da coisa toda e o eventual choque, esse outro aí de nome esquisito vai só na maciota, na elegância. É o Speak no Evil se dirigido por um Hitchcock com um toque de viadagem francesa (calma, não precisa baixar tão rápido, foi só uma analogia). A cadência do ritmo é pura maestria de direção, nesse sentido lembra o Spoorloos (que você não deve ter assistido também porque não está na sua alçada intelectual).
Outro lance interessante é que na oposição total ao Speak no Evil, os personagens são racionais. O protagonista que não é o Harry é um cara que só parece abobado, mas é esperto e toma decisões lógicas. E metáfora sobre masculinidade é muito mais sofisticada.
E não tem nada de choque no final, seu ignorante. Na verdade é melhor você nem baixar. Vai embora daqui.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Nas Sombras (Im Schatten) - 2010

Sinopse: Trojan é um ladrão profissional em busca de uma nova oportunidade  de fazer dinheiro. Ele entra em um arriscado plano de assalto a um carro-forte junto de antigos parceiros do crime.  

Direção: Thomas Arslan

Elenco: Misel Maticevic, Karoline Eichhorn, Uwe Bohm

 






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1,42gb(1080p)>> Link Direto


Comentário: Um filme policial minimalista sobre procedimento criminal. Parece chato né? Mas não é, porque pelo amor de deus, às vezes a gente só quer um filme interessante sem firulas ou virtuosismos técnicos e dramáticos, que é o que 'Nas Sombras' é. Mesmo assim, por mais 'seco' que possa parecer, é um filme que explora muito bem com sua fotografia digital gritante a arquitetura cinza envidraçada de Berlim, então tem uma textura narrativa bem pensada sim, em termos de atmosfera.
    Acaba que também é uma das melhores transposições (cópias) do universo criado por Richard Stark/Donald Westlake. Eu sei que esperar que vocês conheçam algo de literatura é demais, mas esse autor é pica, confia. Esse cara é famoso (não é) por uma série de pulp fictions sobre o ladrão Parker nos anos 60 (até o Godard, aquele arrombado, já adaptou pro cinema). 
    Enfim, essa série de livros hardboiled aí é um negócio finíssimo com uma construção de universo muito daora sobre submundo criminal, prosa econômica, muito direta, totalmente plot driven (pensa no John Wick só que feito nos anos 60). E esse filme aí não é adaptação não, mas é a melhor adaptação que não é adaptação disso aí. E como a maioria dos otário não leu, se assistirem vão dizer 'nossa, arthouse neorrealista, com influências do Melville'. Não, porra, é inspirado no pulp de essência mesmo.
    Mas voltando ao filme... tem toda a estrutura confortável de um bom thriller sem pentelhação... o protagonista é frio, calculista e extremamente profissional, naquele esquema de estar sempre um passo à frente de seus adversários. A trama começa no pique, com o passo a passo de um assalto.
    Enfim, uma pena esse filme... ter... ficado... ... ... nas sombras...... (mas também, esse capa não se ajuda, parece protagonizado pelo Mauro Cezar).

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Hell House LLC - 2015

Sinopse: Uma documentarista investiga a misteriosa tragédia que ocorreu em um parque temático de halloween.


Direção: Stephen Cognetti


Elenco: Gore Abrams, Alice Bahlke, Danny Bellini







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1080p (1,4GB) >> Link direto 


Comentário O subgênero "filmagem encontrada", quando acertado, se torna aquela experiência imersiva que deveria sempre justificar o formato. Hell House LLC é desses, que consegue criar uma narrativa convincente para o uso dessa linguagem e emprega bem os elementos de horror com sustos bem orquestrados.

O filme explora diferentes aspectos do subgênero em três linhas temporais distintas: a clássica do falso documentário pós-evento, com equipe investigando; os responsáveis pela atração temática que documentam a criação do local e os vídeos upados na internet pelos visitantes do hotel no dia que deu zica. O resultado é uma rima visual que funciona por meio do complemento entre os formatos.

A maior sacada é utilizar uma atração temática de horror como centro da narrativa, brincando com a ideia de desorientar o espectador entre o que é "horror" real ou o que pertence ao espetáculo. É um dos filmes raros modernos que consegue ter personalidade suficiente para estabelecer uma mitologia própria interessante.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

História do Oculto (Historia de lo Oculto) - 2020

Sinopse: Às vésperas de uma crise política e econômica na Argentina (mais uma, no caso), um programa jornalístico em sua última edição tenta expor a relação de autoridades empresariais e do governo com uma seita satânica. Nos bastidores, estranhos fenômenos começam, repórteres desaparecem e o fim do mundo se aproxima.

Direção: Cristian Ponce

Elenco: Germán Baudino
Nadia Lozano
Héctor Ostrofsky
Agustín Recondo
Lucia Arreche





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Comentário: Um daqueles experimentos narrativos que fascinam e mantém certa esperança - mesmo que vã - no futuro do cinema. "História do Oculto" tem os recursos e o jeitão de um filme de conclusão de faculdade de audiovisual, ou ainda, de filme feito pra streaming (acho que tem na Netflix inclusive kk), mas aqui essas capenguices e pretensões juvenis são todas canalizadas positivamente em favor do ritmo e da atmosfera. São praticamente duas locações, um punhado de personagens e orçamento inexistente, mas o começo frenético e a ambientação convincente são imediatamente imersivas (nem que seja pela desorientação), e é recompensador lentamente ir juntando as peças e entender o que está em jogo. É um thriller político na sua estrutura, mas que de forma calculada e segura adentra cada vez mais no horror cósmico... e como redator desse fardo que chamo de blog, acostumado a filtrar muita tranqueira refinando só a nata do cinema para vocês, devo confessar que há tempos um filme não me oferecia sustos sinceros e angústia genuína quanto esse.
    A trama é bem bolada, elevada por um estilo reminiscente do Borges (é afinal de contas, infelizmente, um filme argentino), na ideia de sofisticar as narrativas pulp e folhetinescas, até inevitavelmente extrapolar para algo no escopo do Carpenter ("Príncipe das Sombras" e "À Beira da Loucura" vem à mente), em um final para o qual certamente vários leitores torcerão o nariz - mas que é bem espertinho apesar de tudo. "História do Oculto" é acima de tudo uma alegoria sobre totalitarismo, sobre os rumos da política latino-americana travados diretamente no inferno e de como nosso legado é um de repetições trágicas, farsescas, ad infinitum em ciclos de poder e opressão... mas sei que o nosso leitor é meio burro e tal, então basta dizer que dá vários cagaços.

domingo, 15 de maio de 2022

The Scary of Sixty-First - 2021

Sinopse: A vida de duas amigas entra em uma espiral de paranoia e loucura quando elas descobrem que o apartamento que recém alugaram pertencia anteriormente ao notório pedófilo e traficante sexual bilionário Jeffrey Epstein.

Direção: Dasha Nekrasova

Elenco: Madeline Quinn
Betsey Brown
Stephen Gurewitz
Dasha Nekrasova
Mark H. Rapaport








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Comentário: 

    De fato, somos barcos contra a corrente remando incessantemente em direção ao passado, como diria Fitzgerald. O mundo rodou, rodou, e de novo os velhos milicos brochas estão no poder aqui, a Guerra Fria se reconfigura lá. No cinema, essa busca pelo conforto do familiar se manifestou com mais clareza; em Hollywood, reboots, soft reboots e remakes de toda a propriedade intelectual disponível monopolizam as salas, e no arthouse não é diferente - é até pior. Todo dia qualquer mequetrefe faz o que na cabeça dele é o GIALLO MODERNO! A SUBVERSÃO DO EXPLOITATION! A DESCONSTRUÇÃO DO HORROR! Não há exemplo melhor do que o recente "X", do West, mais uma tranqueira da A24 lançada com toda pompa, se propondo a ser O GRANDE RESGATE do slasher setentista e que no fim não só não tem nada de novo ou criativo para oferecer, como também se perde na própria reverência - ironicamente, a um modo de se fazer cinema que jamais respeitou qualquer regra, que jamais criou ícones que não pudesse dessecrar. Pra variar, todo mundo sedento pela aura criativa de outrora caiu no golpe (as pessoas foram capazes de eleger o Hitler, não dá pra ter nenhuma confiança mesmo). O fã inteligente de horror (como eu) não tem mais onde se consolar, já que tudo virou pastiche e qualquer coisa minimamente melhor se transforma no Segundo Advento de Cristo, muitas vezes injustificadamente. 

    Aqui entra "The Scary of the Sixty-First". Fez algum burburinho por festivais e circuitos limitados, mas não chegou a dividir público e crítica porque ambos foram unânimes em odiar e em sequência esquecer. Depois de todo esse tempo, as pessoas já não são mais capazes de reconhecer um autêntico exploitation nem quando ele está nas suas caras. "Scary" é talvez o único exemplar genuíno do gênero em décadas, principalmente no seu aspecto titular: a exploração, o ato de se apropriar de um fato ou tópico do momento e extrapolá-lo de forma gritante, apelativa e chocante. Aqui, a história gira em torno do legado que Jeffrey Epstein deixou para trás. Para quem pisou no planeta Terra pela primeira vez hoje, Epstein foi o infame bilionário pedófilo e traficante sexual, que diariamente levava à bordo do seu Lolita Express amigos da política, das artes e dos negócios (Weinstein, Spacey, Singer, Clinton, Gates e o filho mais fracassado da rainha são alguns dos íntimos), para sua ilha particular que também calhava de ser um harém para todos os gostos e idades. Epstein foi preso em 2019 e antes que pudesse abrir a boca foi morto na cadeia numa queima de arquivo.

    Se a mídia é sempre discreta ao lidar com essa bomba-relógio, Nekrasova escancara tudo da forma mais grosseira e desrespeitosa possível, para nossa alegria. No seu debut (atrás e à frente das câmeras, como roteirista, produtora, diretora e coadjuvante), ela transforma turbilhão que cerca Epstein em um horror gótico hipster com toda a energia de um adolescente falando que virou ateu na ceia de natal. Duas jovens alugam um apartamento que pode ou não ter pertencido anteriormente à ele, e cada uma é afetada pela descoberta de formas distintas. Uma entra em uma espiral de paranoia, medo e obsessão; a outra parece ser "possuída" (ou libertada?) por um espectro sexual maligno que rende as cenas mais avacalhadas do longa.

    A categorização como exploitation não vem só do zeitgeist delirante da extrema-direita (enquanto se mantém perversamente ambígua no seu próprio posicionamento), mas também da produção de guerrilha. Com orçamento zero, Nekrasova e Quinn (que também assina o roteiro e protagoniza) oferecem soluções criativas e ousadas para contornar suas limitações. Você pode achar o que quiser disso, mas é preciso certa coragem e comprometimento para, por exemplo, se masturbar na maçaneta da casa real do Epstein numa gravação clandestina. "Scary of Sixty-First" e suas criadoras são uma luz de esperança no futuro - ou um último alento antes da morte.

 

 

(apesar de tudo, sabemos que o filme foi enterrado porque eles não querem que você saiba a verdade)

quarta-feira, 27 de abril de 2022

The 20th Century - 2019

Sinopse: Na virada do século XX, o jovem aristocrata Mackenzie King precisa enfrentar uma série de desafios na luta para se tornar líder do Canadá - entre eles, a repressão de desejos fetichistas bizarros, seu amor secreto por uma revolucionária e o próprio processo eleitoral, que consiste em provas fatais de onde apenas um candidato sairá vivo.
 
Direção: Matthew Rankin
 
Elenco: Dan Beirne    
Sarianne Cormier
Catherine St-Laurent
Mikhaïl Ahooja
Brent Skagford




 
Donwload:
 
 
 
 
Comentário: 
 
    Quando uma obra absurda é comparada ao Monty Python, de forma elogiosa, você sabe que é cilada porque a única coisa ao estilo Monty Pyhton que já funcionou, em qualquer época e lugar, foi o próprio Monty Python. Na maioria dos casos, o humor nonsense depende de uma fórmula delicada demais para ser bem-sucedido (em primeiro lugar, precisa ser engraçado, coisa que 90% dos pretensos discípulos do quinteto inglês não chega nem perto). Dito isso, "The 20th Century" é a exceção que confirma a regra.

    O longa canadense funciona não necessariamente por ser hilário (apesar de genuinamente engraçado quando precisa), mas por satirizar o exercício selvagem do poder nas suas mais diversas manifestações - o fascismo, o nacionalismo, a monarquia, a guerra - de forma tão grotesca e estilizada a ponto de se tornar um delírio febril, onde tudo que nos é conhecido aqui opera sob a lógica de um pesadelo - é inclusive bastante assustador num todo. Novamente, é algo arriscado, mas que aqui cativa porque há um excelente desenvolvimento de personagens - que seguem humanos nas suas características, mesmo que pertencendo a um mundo artificial e deformado - e, principalmente, por sua grandeza estética.
 
    Raros filmes conseguiram criar um universo particular tão deslumbrante, original, criativo e hipnótico com, visivelmente, tão parcos recursos. A jornada de Mackenzie King (pense num jovem João Dória vivendo uma aventura no Canadá do South Park) transcorre em um mundo anguloso que homenageia toda a história do cinema, do expressionismo alemão (você leitor pode fazer esse comentário para impressionar sua mãe ou pai ausente, já que namorada/o vocês não tem), à era de ouro de Hollywood, às vanguardas das décadas de 60/70 e ao horror aveludado dos anos 80. E o melhor de tudo é que, por sua curta duração, termina muito antes de cansar.

    Como muitas coisas na vida, "The 20th Century" é um para poucos, mas garanto que esses poucos estarão bem servidos.

sábado, 9 de abril de 2022

Fantasma: Devastador (Phantasm: Ravenger) - 2016

Sinopse: Entrada final da série "Phantasm". Anos após os eventos do último filme, Reggie vive em duas realidades paralelas. Em uma, é um idoso incapacitado, internado em um hospital psiquiátrico e diagnosticado com demência. Noutra, segue vivendo a mesma cruzada contra Tall Man pelo meio-oeste americano devastado. Quando ele começa a ter visões de Mike, vindo de um futuro distópico, alertando-o que está vivendo em uma ilusão fabricada por alienígenas, as linhas entre realidade e imaginação se tornam cada vez mais tênues.

Direção: David Hartman

Elenco: A. Michael Baldwin
Reggie Bannister
Dawn Cody
Gloria Lynne Henry
Stephen Jutras



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Comentário: Onde falta técnica, sobra alma. "Devastador" não só é a melhor sequência dos "Phantasm" como é a única boa (no sentido das outros três serem basicamente o primeiro reciclado com cada vez mais preguiça). A única entrada não dirigida pelo Coscarelli (apesar dele ser corroteirista) é também a que melhor consegue expandir a mitologia do Tall Man, do seu planeta invasor e das bolas de metal que furam cabeça, dando um contexto de ficção-científica que efetivamente faz sentido. Acerta também no fan service e no surpreendente carinho com que trata seus personagens; é aqui onde temos pela primeira vez desde o original uma relação emocionante entre Mike e Reggie (este, finalmente no espaço merecido de protagonista), nos dando inclusive um final digno e tocante entre eles, corrigindo algo que sempre frustrou nos predecessores (no caso, aquele mesmo final em aberto que reseta tudo para que o próximo filme pudesse partir o mesmo lugar). E tudo isso sem encher linguiça reprisando cenas do original.

    Uma pena, por outro lado, que o orçamento tenha sido menor do que [insira aqui a piadinha, tipo "meu pinto"]. Estejam preparados: é preciso ter estômago pra aguentar o visual grotesco horroroso e a direção tão ruim quanto a de uma mulher atrás do volante! Mas há tanta sinceridade e originalidade envolvida, aquele afã perdido do cinema independente ambicioso, que é possível enxergar a beleza por trás do pior CG desde isso aqui.

sexta-feira, 11 de março de 2022

Lake Mungo - 2008

Sinopse: Documentário acompanha a família Palmer que, após a misteriosa e trágica morte da filha, começa a registrar estranhas aparições em fotografias e vídeos.

Direção: Joel Anderson

Elenco: Rosie Traynor    
David Pledger    
Martin Sharpe
Talia Zucker    
Tania Lentini








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OU




Comentário: 

    O falso documentário já é um gênero em si mesmo, mas "Lake Mungo" consegue algo que poucos (ou até mesmo nenhum) conseguiram: ele efetivamente se confunde com uma história real. A autenticidade vem principalmente da estética e montagem - que seguem a cartilha da HBO à risca, inclusive na trilha sonora), e também porque é crível. Apesar do teor sobrenatural, tudo é apresentado com sobriedade e dúvida, e há um tom dramático sensível apoiado num elenco quase amador que transmite sinceridade. Ainda assim, sobra espaço para o mais puro horror, mesmo que aqui o que mais se deva temer seja, se preparem para o clichê, os vivos.

    'Lake Mungo" é um triunfo em storytelling, conseguindo, de forma muito coerente, ter dezenas de plot twists, onde uma mesma imagem adquire múltiplas camadas de significados a cada curva no caminho - e onde sempre há algo a mais que nos passou despercebido da primeira vez -, e mesmo mantendo sempre um pé no possível, quando é necessário, torna-se um dos filmes mais aterrorizantes das últimas duas décadas. Para os fãs de Twin Peaks, há muito mais que "Lake Mungo" deve à série além da família Palmer.
 

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Desespero (The Incident) - 2011

AKA Asylum Blackout


Sinopse: Um grupo de funcionários de um hospício ficam presos junto aos internos durante uma intensa tempestade.

Direção: Alexandre Courtès

Elenco: Rupert Evans, Kenny Doughty, Joseph Kennedy, Dave Legeno, Richard Brake, Marcus Garvey, Anna Skellern

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Comentário: Courtès faz sua estreia no cinema depois de uma carreira em videoclipes, mas o resultado lembra mais o estilo dos filmes do roteirista S. Craig Zahler: câmera parada e paciente, levando o seu tempo para revelar as salas e corredores claustrofóbicos que em breve se tornarão o lar de um pesadelo, assim como as sequências mais pesadas, em um caos controlado de ultraviolência e efeitos práticos. O diálogo atinge um tom naturalista, pois remete aos elementos autobiográficos de vivência do próprio Zahler, que já trabalhou em cozinhas (local de trabalho dos protagonistas) e é músico (personagens têm uma banda). A ambientação oitentista resgata o exploitation pé no chão, de um período pré-celular, e não essas palhaçadas modernas que forçam a barra.  Richard Brake não precisa de uma linha de diálogo para justificar o porquê do protagonista ser tão avesso à sua presença. Uma adição bem feita ao subgênero prisão/manicômio que não tem pressa em passar tempo com seus  personagens antes de os condicionarem a destinos terríveis.


terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Noroi - A Lenda de Kagutaba (Noroi) - 2005

Sinopse: Documentarista começa a investigar fenômenos aparentemente sobrenaturais que rondam os subúrbios japoneses e que podem estar ligados a um demônio folclórica esquecido chamado de 'kagutaba".


Direção: Kôji Shiraishi

Elenco: Jin Muraki     
Rio Kanno     
Tomono Kuga     
Marika Matsumoto

 

 

 
 
 
 
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Comentário: Oriundo da safra do terror japonês do final da década de 1990 e começo dos anos 00 (de "Ringu" ao "O Grito", vocês sabem do que eu tô falando), "Noroi" acabou de escanteio perante seus pares, e nesse caso talvez com razão. É longo demais, vai longe demais em um terceiro ato que se recusa a acabar e, principalmente, comete o maior pecado capital do horror: revelar a assombração no fim sem ter os recursos para não deixá-la tosquíssima. Apesar desses elementos quase destruírem o filme num todo, ainda é um dos exemplares mais bem justificados do estilo found footage e, se assistido com as luzes apagadas, o celular no modo avião e sozinho, "Noroi" é sem dúvida nenhuma uma das experiências mais aterrorizantes da história do cinema. Juro.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Primavera (Spring) - 2014

Sinopse: Após a morte de sua mãe, o inconsolável Evan vai afogar as mágoas com seus amigos no bar onde trabalha. No entanto, ele se envolve numa briga que acaba fazendo com que seu chefe o demita. Sem rumo e com a possibilidade de ser perseguido por seu novo desafeto, Evan decide viajar para fugir de seus problemas. Numa pequena e turística cidade costeira na Itália, ele conhece e se interessa por uma linda e misteriosa mulher. Logo se torna claro que ela possui segredos obscuros que podem destruí-los.

Direção: Justin Benson e Aaron Moorhead

Elenco: Lou Taylor Pucci Evan, Nadia Hilker Louise, Augie Duke Jackie



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>> 1080p - 1,65GB

>> 720p - 813MB

>> Legenda



Comentário: Seria muito conveniente fazer analogias entre Spring e um punhado de filmes. Das associações mais fáceis: Antes do Amanhecer do Linklater e A Experiência (de sei lá quem dirigiu isso). Ou mesmo remeter alguns elementos a Cronenberg e Lovecraft. Mas a verdade é que o filme de Benson e Moorhead é um legítimo filme de Benson & Moorhead para quem já assistiu alguma coisa da filmografia deles: peculiaríssimo em abordagem e visualmente incômodo, mas isso até que superado nossos próprios vícios industriais estéticos cinematográficos.
Começa como uma aparente história de broderagem e luto e nesse breve período já convence pela honestidade da relação entre os dois personagens. Segue então para um road movie bon vivant (brega né, tô ligado) culminando num romancezinho indie pretenso ao natural, ou seja, aquela referência do Antes do Amanhecer se aplica neste momento. Claro que antes disso já surgem esporadicamente os elementos sobrenaturais, inicialmente de maneira homeopática formatada, mas logo, em osmose, o horror formulaico insere-se no cinema amortecido de Benson e Moorhead, transformando-se em algo único. Para o espectador menos boboca vale aquela refletida da escalada narrativa e de como o filme consegue concentrar e desenvolver tanta coisa e tanta gente em tão pouco tempo. Mas o coração da parada é o eixo de tudo ser a interação dos personagens e de como a história gira ao redor disso.
O espectador brasileiro acostumado a comer massa com salsicha obviamente torce o nariz pra esse tipo de filme, mas pros desiludidos que acham que o cinema já acabou há bastante tempo, dá aquela revigorada de encher os olhos.

sábado, 20 de junho de 2020

Confronto no Pavilhão 99 (Brawl in Cell Block 99) - 2017


Sinopse: Bradley Thomas é um ex-boxeador que perde o emprego como mecânico, é avisado pela mulher que é corno no mesmo dia e, em ato contínuo, destrói o carro dela na porrada. Logo depois eles fazem as pazes, se juram de amor e ele decide virar traficante para dar uma vida digna para a mulher e o futuro herdeiro do casal. Eventualmente as coisas dão errado e casualmente ele é obrigado a ser preso e se infiltrar numa espécie de masmorra para assassinar uma pessoa que ele nem sabe se existe.

Direção: S. Craig Zahler

Elenco: Vince Vaughn, Jennifer Carpenter, Don Johnson



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950MB : Torrent (Pirate Bay)
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2GB: Torrent (Rarbg)
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Comentário: Esse filme é basicamente tudo que a Odisséia de Homero tentou ser e não conseguiu. Uma saga épica e catártica protagonizada pelo Vince Vaughn, que começa com ele espancando o carro da própria mulher. Daí em diante, amigos, seguem mais de duas horas de puro deleite narrativo. É um daqueles raros casos que você nem quer tanto ver os personagens tendo suas cabeças esmagadas, ou corpos repartidos ao meio, nem precisava, porque se fosse um filme só acompanhando o dia a dia do Vaughn na prisão já bastava. Mas sim, a violência surge, ainda em mais profusão do que em Bone Tomahawk, embora dessa vez mais caricata, exploitation, quase beirando ao cartunesco.
Só há duas coisas ruins: o carisma de todos os personagens (eu diria absolutamente todos, até aqueles que contracenam por meros segundos), que torna a violência contra eles mais triste do que merecida. E o outro aspecto negativo é que o filme acaba, em algum momento.
Vale aquela dobradinha do Zahler com Bone Tomahawk (ou maratona mesmo, terminando com o Dragged Across the Concrete, que é ótimo, mas inferior aos antecessores).

Rastro de Maldade (Bone Tomahawk) - 2015

Sinopse: Numa cidadezinha do velho oeste já cansado, um xerife mobiliza um grupo de resgate para encontrar a médica da comunidade, sequestrada por uma tribo de canibais. A força-tarefa conta ainda com o ator de Lost, um velho e um cara com a perna bichada.

Direção: S. Craig Zahler

Elenco: Kurt Russell, Patrick Wilson, Matthew Fox, Richard Jenkins









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Torrent

Link magnético

720p (1,1gb)
1080p (2,2gb)


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Comentário: "Bone Tomahawk" foi desovado lá em 2015, discretamente, como um aparente western B direto para dvd, no mesmo ano que o Tarantino lançava o seu "Os Oito Odiados". Os dois filmes tinham um ator em comum no elenco, o Kurt Russell. Para quem acompanha a indústria, sabe que geralmente atores no perfil do Russell (que são icônicos, mais do que necessariamente talentosos) oscilam entre produções de respeito (raras) e tranqueiras (recorrentes) para faturar o necessário pra pagar as contas e custear algum vício. O que parecia se enquadrar, no caso o "Oito Odiados" sendo a obra virtuosa e Bone Tomahawk para se esconder debaixo do tapete. Acabou que foi o inverso, o do Tarantino gerou aquele tiquinho de decepção na sociedade, enquanto Zahler surpreendeu os desavisados com um western-horror de primeiríssima categoria com potencial de cult. Portanto, o western correto de Russell em 2015 é o Bone Tomahawk.
O filme já abre com uma degola e os primeiros cinco minutos seguem numa sequência de selvageria. A intensidade da arrancada acaba criando uma falsa expectativa de que um festival incessante de gore estaria por vir, mas o que se sucede é, genuinamente (o que é raro!), o desenvolvimento dos personagens, uma dedicação plena narrativa às relações e à história. O elenco também ajuda, além do Russell, tem o cara do Lost e o cara do Invocação do Mal (e no início tem o cara do Rejeitados pelo Diabo). Mas o melhor mesmo é o Richard Jenkins (aquele velho que normalmente faz coadjuvantes).
Tem arrombado que torce o nariz para a lentidão do segundo ato. De fato, é um período longo de conversas e caminhadas, mas é pura e simplesmente a progressão narrativa de um slow-burn horror, que culmina numa explosão de violência contundente, mesmo!
Filmado em 21 dias, com orçamento de U$ 1,8 milhão e usando a clássica western town da Paramount Ranch, Bone Tomahawk é uma daquelas experiências memoráveis dignas de  mostrar para o pai e ver a reação do velho naquela cena (aquela!).
E se já assistiu, vale rever, porque melhora.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Possessor - 2020


Sinopse: Uma agente trabalha para uma organização secreta que usa tecnologia para habitar (ou possuir, mas como vocês são burros talvez pensem que seja em outro sentido, sei lá qual melhor termo) corpos de outras pessoas com objetivo de usá-los para cometer assassinatos encomendados.

Direção: Brandon Cronenberg

Elenco: Andrea Riseborough
Christopher Abbott
Sean Bean
Jennifer Jason Leigh








DOWNLOAD (ATENÇÃO, TEM UMA MARCA D'ÁGUA MEDONHA NA PARTE INFERIOR DA IMAGEM, MAS É A ÚNICA CÓPIA DISPONÍVEL, ENTÃO NÃO RECLAMA)


TORRENT - https://yts.mx/movies/possessor-2020

MAGNET LINKS

>> 950MB: Em 720p (menor qualidade né, acho que não preciso explicar)

>> 1080p (esse é mais top, baixa essa versão se você tem o mínimo de decência)

Legenda PT-BR

Comentário: Segundo filme do filho do Cronenberg (o primeiro foi um chatão que não lembro o nome e parecia dirigido por aqueles estudantes de cinema brasileiros). Desta vez,  diferente do natimorto cinematográfico que foi o debute, Possessor é um suspiro de esperança sobre o futuro do rapaz.
Tipo de experiência desagradável que por algum motivo (distúrbio, obviamente) tende a agradar o público que frequentava esse blog. O conceito aparenta ser uma daquelas premissas do Christopher Nolan, mas não tem nada daquele escândalo técnico não, o negócio é bruto e rústico. Daria para dizer que é um argumento do Nolan executado pelo John Hyams (já viram Soldado Universal 3 e 4? Assistam, seus arrombados). Tem uma atmosfera que me remeteu também ao Nicolas Refn, mas sem a parte sonolenta.
Estética nublada, com aquela ambientação sonora reduzida comum ultimamente, e um tom melancólico que indica ser dirigido por alguém que possivelmente cresceu ouvindo grunge e xingando a mãe. Mas o que chama mais a atenção é a violência mesmo, tem um pouco do body horror do paizão, mas é muito mais incisiva, quase realista demais, incômoda.
Portanto, não espere tanto daquele baboseira sci-fi moderna pretensiosa, esse é mais diretaço mesmo, sem aquela higienização e preciosismo técnico dos filmes da A24. Possivelmente a obra mais sólida que você verá do gênero por um bom tempo.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

The American Astronaut - 2001

Sinopse: As aventuras de um comerciante interplanetário em homérica viagem por um sistema solar remoto, com a finalidade de fornecer à população feminina de Vênus um representante masculino adequado. Enquanto isso, sem saber, ele é perseguido pelo sangue-frio Professor Hess, uma enigmática figura de seu passado.

Direção: Cory McAbee

Elenco: Cory McAbee
Greg Russell Cook
James Ransone
Rocco Sisto
Tom Aldredge







 
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Legenda PT-BR



Comentário: Cinema deixou de ser algo simplesmente subjetivo há muito tempo. Não basta que simpatizemos com um filme do ponto de vista emocional, é necessário  também que ele seja melhor que a maioria que já vimos anteriormente, e semelhante a outros que admiramos . Portanto, quando assistimos a algo como "The American Astronaut", é comum termos dificuldade em formar uma opinião, o que torna difícil a tarefa de desenvolver um simples comentário, mesmo que para um blog desqualificado e miserável como esse.
    Mas, como sempre há alguém à espreita disposto a considerar qualquer opinião... digamos apenas que, se o tal astronauta americano pousasse na terra, possivelmente seria recebido por Tim Curry e Richard O'Brien. Não que "The American Astronaut" tenha as viadage de Rocky Horror (antes que nossos leitores, machos, sintam-se ofendidos pela postagem); pelo contrário, é quase uma versão “hétero” e depressiva do mesmo - a comparação se refere ao fato de ser igualmente criativo, imprevisível e agradavelmente excêntrico.
    O orçamento,  próximo da inexistência, ressalta um aspecto rústico completamente oportuno à produção, e se os números musicais não são lá muito empolgantes, chamam a atenção por serem representados de forma inesperada. Cinema fantástico de dar orgulho do ser humano, o tipo de coisa que não parece ter sido concebida após um processo criativo (mesmo que este provavelmente sob efeitos de drogas), parece simplesmente existir.


sábado, 25 de agosto de 2012

Otesanek - 2000


Sinopse: Mulher estéril recebe de seu marido um bebê esculpido a partir de um tronco de árvore. Com o passar do tempo, a escultura ganha vida e adquire um apetite insaciável, forçando os pais a tomarem medidas drásticas.

Direção: Jan Švankmajer

Elenco: Veronika Zilková
Jan Hartl
Jaroslava Kretschmerová 
Pavel Nový
Kristina Adamcová






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Legendas PT-BR já inclusas.


Comentário:
  
       A filmografia do surrealista tcheco Jan Švankmajer, famoso por sua mistura de diversas técnicas de animação com live-action, está intimamente ligada à história do seu país. Sua provável obra-prima, “Alice”, por exemplo, insere livremente a história clássica Carroll dentro de um apartamento fechado e em ruínas, onde a jovem Alice cresce a ponto de ser esmagada pelos limites dos cômodos; uma imagem síntese da Checoslováquia sob a cortina de ferro (que saudade).  
 
    Do período pós-Guerra Fria, talvez este “Otesanek” seja a obra mais expressiva do cineasta. Se em “Alice” Švankmajer mostrava a juventude tcheca como uma criança que estava crescendo além dos limites impostos pelo regime soviético, em "Otesanek", essa geração, agora adulta, é simbolizada através de um casal consumista desenfreado que acaba por gerar um monstro insaciável e imortal. É a ânsia do recém "liberto' povo tcheco, privado das comodidades do ocidente por tantas décadas (Švankmajer parece ter percebido logo que "liberdade" é outra expressão para "consumo" e nada mais) representada pelo pequeno Ótik: a criatura esculpida em madeira que deve substituir o filho que a estéril Bozena nunca poderá ter. Ao criar vida, Ótik a princípio consome apenas o necessário para sobreviver. Aos poucos, porém, adquire um apetite que só é saciado através de carne humana. Nesse sentido, a horror de Švankmajer funciona além de qualquer alegoria política. Todos os residentes do condomínio onde mora Ótik tornam-se vítimas em potencial; com exceção de Alzbetka, a criança que, antes de qualquer adulto, compreende o que está ocorrendo ao seu redor e antevê o trágico desfecho de forma absolutamente impotente.
 
    Com uma direção surpreendentemente contida para os padrões de Švankmajer (breves animações aqui e ali apenas), que potencializa os momentos de terror, Otesanek”  é um daqueles filmes que funcionam em diversos níveis. Pode ser uma grande metáfora para a realidade social da República Tcheca, ou pode ser só um excelente filme sobre um bebê mutante canibal.