quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Short Eyes - 1977

Sinopse: Pedófilo branco e burguês é mandado para cadeia junto com um bando etnicamente diverso de assassinos e afins. Aí já viu né.

Direção: Robert M. Young

Elenco: Bruce Davison
José Pérez
Nathan George    
Don Blakely
Luis Guzmán









Download:
 
 
 
 
Comentário: Isso daqui é tipo um episódio do "Oz" (que fez mais para manter a criançada longe da criminalidade do que qualquer campanha educacional chegou perto) dirigido pelo Altman. É adaptado de uma peça, por isso espere poucos cenários e muitos monólogos - apesar de um deles, onde o pedófilo fala abertamente de suas atrações (tipo o Bolsonaro falando das meninas venezuelanas, só que proferidos por uma pessoa que sabe ler, escrever e usar talheres) ser de cair o queixo -, mas a direção do Young emana uma energia pulp intensa que faz a balança pesar mais pra um exploitation maduro do que um dramalhão que mira no Oscar. Perde força no seu clímax, quando o que era uma jornada pelo inferno se converte em um dilema moral saído direto do "Consciências Mortas", mas "Short Eyes" é mais um daqueles filmes policiais sujos da década de 70 que não se fazem mais; dinâmico, ágil, direto ao ponto, com ambições artísticas elevadas mas sem comprometer o fator entretenimento no caminho.

terça-feira, 24 de outubro de 2023

O Estigma da Infâmia (Never Take Candy From a Stranger) - 1960

 AKA Never Take Sweets From a Stranger


Sinopse: Professor muda-se para idílico vilarejo no interior, mas quando sua filha é abusada pelo patriarca endinheirado da comunidade, vê-se abandonado e ameaçado por todos os habitantes.
 
Direção: Cyril Frankel
 
Elenco: Gwen Watford
Patrick Allen
Felix Aylmer
Niall MacGinnis
Alison Leggatt






Downlaod:




Comentário: Um dos poucos da Hammer que foge do horror gótico, também um de seus maiores fracassos - e, coincidência ou não, um de seus únicos filmes bons - "Estigma da Infâmia" diz muito em muito pouco tempo. Um dos primeiros filmes a lidar frontalmente com o tema espinhoso da pedofilia, abriu novas fronteiras temáticas para o cinema anglo-saxão, mesmo que alguns aspectos tenham se tornado datados (sendo o principal, e mais hilário, o pedófilo ser um velho gordo retardado babão careca totalmente demente). O horror aqui vem mais do pacto de silêncio de uma comunidade que se nega a encarar o mal que a cerca (é diretamente inspirado pelo "Inimigo do Povo" do Ibsen), mas seu clímax definitivamente é um dos mais genuinamente tensos, frenéticos e aterrorizantes da história do cinema. Uma preciosidade criminalmente subetimada, recomendada espcialmnte aos bolsonaristas, que adoram votar em velho rico carcomido que sente um clima quando rodeado de crianças..

domingo, 22 de outubro de 2023

Foi Deus Quem Mandou (God Told Me To) - 1976

Sinopse: Nova York começa a ser aterrorizada por uma série de massacres bárbaros e aparentemente sem sentido, cometidos por pessoas aparentemente normais, sem nenhuma relação entre si exceto pelo fato de todas alegarem que foram instruídas diretamente por Deus. O policial que está no caso aos poucos descobre que tem mais em comum com a investigação do que poderia imaginar.

Direção: Larry Cohen

Elenco: Tony Lo Bianco
Deborah Raffin
Sandy Dennis
Sylvia Sidney
Richard Lynch
Andy Kaufman




Download:




Comentário: Começa daquele jeito fuleiro de sempre do Cohen, filmagem de guerrilha, campenguice total, trama policial suja no melhor estilo setentista (apesar do humor involuntário dos figurantes do filme interpretando estarem sendo alvejados no meio da rua enquanto vemos os habitantes já castigados de Nova York ao fundo, desavisados, entrando em pânico, quase uma pegadinha do Silvio Santos). Aos poucos, contudo, de forma surpreendentemente sóbria e segura começa a migrar do thriller para, acredite se quiser, uma das ficções-científicas mais bem boladas - e genuinamente provocadoras - do cinema americano. É um daqueles que se falar muito estraga, mas seu plot twist é merecido e convence em absoluto dos absurdos para os quais inevitavelmente descamba, em nada lembrando as obras mais célebres do Cohen, famosas justamente por seu pastelão. O Kurosawa (o que vale, no caso) meio que copiou na sua obra-prima "A Cura".

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

A Próxima Vítima - 1983

OBS: A versão original dessa postagem foi deletada por "violar as regras do blogger". A quem interessa nos calar?!
 
Sinopse: Livremente inspirado em caso real conhecido como “O Vampiro do Brás”, quando diversas prostitutas foram brutalmente assassinadas em São Paulo na década de 1980. Antonio Fagundes é o jornalista broxa esquerda caviar que está no caso.

Direção: João Batista de Andrade

Elenco: Antônio Fagundes
Louise Cardoso   
Mayara Magri
Othon Bastos
Gianfrancesco Guarnieri



Download:


Comentário: 
 
     Dizia o Hitchcock que na estrutura narrativa do thriller era preciso sempre justificar o porquê, por exemplo, de determinado personagem não poder simplesmente pedir ajuda à polícia. Aqui, a brasilidade intervém no tema por simplesmente não precisar criar tais justificativas: essa é uma história de horror porque não há a quem pedir ajuda. É a mais pura sensação desesperadora de ser brasileiro traduzida no desolado Brás, uma ambientação que se torna também personagem. Fagundes - no auge da canastrice e carisma - aqui é o repórter idealista, cheio de cartazes do Ho Chi Minh em seu espaçoso apartamento, que aos poucos se despedaça nos cortiços claustrofóbicos e imundos do bairro paulista, o qual foi locação. O pano de fundo é o começo da redemocratização (tem até participação especial do Luladrão em comício), e o diabo não é o Jack Estripador latino, mas sim o torturador do DOPS (em atuação igualmente demoníaca de Othon Bastos), cujo aparato e poder adentra a natimorta Nova República, da qual será sempre uma sombra, tornando-se mais escura conforme a luz se torna mais clara. Esse contexto de crítica é selado pelo pacto mefistofélico ao qual, inevitavelmente, Fagundes (tão na sarjeta que, em dado momento, leva até mijada na cara) precisa recorrer.
    Marcado pelo pessimismo amargo mesmo em pleno momento de esperança, "A Próxima Vítima" é praticamente um  poliziotteschi nacional, compartilhando com os italianos seu subtexto político nem um pouco sutil, a misoginia de sempre e personagens brutalizados que habitam uma área moralmente cinza... mas falado em português, o que é bom pros nossos leitores que não conseguem ler mais que cinco palavras em sequencia sem precisar dar uma pausa.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Ghosts... of the Civil Dead - 1988

Sinopse: Episódios que levaram a um massacre em uma penitenciária privada de alta tecnologia na Austrália são reconstituídos por meio de dramatizações e entrevistas em áudio com os detentos que os testemunharam.

 
Direção: John Hillcoat

Elenco: David Field
Mike Bishop
Chris DeRose
Kevin Mackey    
Nick Cave

 

 

 

Download:
 
 
Comentário: 
 
    "Abandonai toda esperança, vós que entrais: este é o Inferno". Apesar de suas bases factuais e objetivas, "Ghosts..." é talvez a melhor representação da clássica inscrição às portas do submundo descrita por Dante. O debut de John Hillcoat (coescrito por ninguém menos que Nick Cave, baseado em parte em suas próprias experiências como detento), é um retrato avassalador e ousado - tantos em termos formais quanto na abordagem material - da vida atrás das grades É uma grande colagem vinda de várias fontes diferentes que criam uma atmosfera de pesadelo, um fluxo de consciência não dos prisioneiros ou guardas, mas da própria cadeia. Dela em particular se destaca, também, a ambientação: concebida pela iniciativa privada para isolar os indivíduos mais asquerosos da Austrália, a Central Industrial Prison é um amálgama de todas instituições dessa natureza do país, cuja segurança máxima chega às raias da ficção-científica (ou, ao menos, do que o futuro se pareceria na perspectiva da década de 80).
    Em sua duração surpreendentemente diminuta, disfere um soco atrás do outro sobre a capacidade de opressão não só do Estado mas também das corporações. É bárbaro, violento, chocante, brutal - quase um body horror no que tange os efeitos da privação de liberdade no próprio corpo do apenado, relegado a ser um depósito de narcóticos para uns, fonte de prazer involuntário para outros, seja sexual ou no descarrego dos mais abomináveis impulsos violentos, em tal potência que nem o reaça otário tem estômago para aguentar. Tudo isso, apesar de certo senso de humor inerente, sem jamais descambar para o exploitation; é ao final uma reflexão bastante urgente sobre o porquê dos sistemas carcerários mundo afora sempre projetados dessa forma, que degrada, destrói, corrompe e jamais recupera.
    Também é, acima de tudo, a crítica mais perspicaz à lógica privatista liberal dos anos oitenta depois do "Robocop".

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Nas Sombras (Im Schatten) - 2010

Sinopse: Trojan é um ladrão profissional em busca de uma nova oportunidade  de fazer dinheiro. Ele entra em um arriscado plano de assalto a um carro-forte junto de antigos parceiros do crime.  

Direção: Thomas Arslan

Elenco: Misel Maticevic, Karoline Eichhorn, Uwe Bohm

 






Download

1,42gb(1080p)>> Link Direto


Comentário: Um filme policial minimalista sobre procedimento criminal. Parece chato né? Mas não é, porque pelo amor de deus, às vezes a gente só quer um filme interessante sem firulas ou virtuosismos técnicos e dramáticos, que é o que 'Nas Sombras' é. Mesmo assim, por mais 'seco' que possa parecer, é um filme que explora muito bem com sua fotografia digital gritante a arquitetura cinza envidraçada de Berlim, então tem uma textura narrativa bem pensada sim, em termos de atmosfera.
    Acaba que também é uma das melhores transposições (cópias) do universo criado por Richard Stark/Donald Westlake. Eu sei que esperar que vocês conheçam algo de literatura é demais, mas esse autor é pica, confia. Esse cara é famoso (não é) por uma série de pulp fictions sobre o ladrão Parker nos anos 60 (até o Godard, aquele arrombado, já adaptou pro cinema). 
    Enfim, essa série de livros hardboiled aí é um negócio finíssimo com uma construção de universo muito daora sobre submundo criminal, prosa econômica, muito direta, totalmente plot driven (pensa no John Wick só que feito nos anos 60). E esse filme aí não é adaptação não, mas é a melhor adaptação que não é adaptação disso aí. E como a maioria dos otário não leu, se assistirem vão dizer 'nossa, arthouse neorrealista, com influências do Melville'. Não, porra, é inspirado no pulp de essência mesmo.
    Mas voltando ao filme... tem toda a estrutura confortável de um bom thriller sem pentelhação... o protagonista é frio, calculista e extremamente profissional, naquele esquema de estar sempre um passo à frente de seus adversários. A trama começa no pique, com o passo a passo de um assalto.
    Enfim, uma pena esse filme... ter... ficado... ... ... nas sombras...... (mas também, esse capa não se ajuda, parece protagonizado pelo Mauro Cezar).

domingo, 23 de abril de 2023

A Breve Noite das Bonecas de Vidro (La Corta Notte delle Bambole di Vetro) - 1971


Sinopse: Quando sua jovem namorada desaparece misteriosamente na Itália, jornalista americano começa uma instigação frenética que o colocará em rota de colisão com poderosas elites.

Direção: Aldo Lado

Elenco: Ingrid Thulin
Jean Sorel
Mario Adorf
Barbara Bach
Fabijan Sovagovic







Download:




Comentário: Um giallo bem acima da média. Superior à seus pares em classe, roteiro e atuações, “A Breve Noite das Bonecas de Vidro” é um thriller que apesar dos charmes inerentes a um horror italiano, tem os pés cravados mais nos clássicos do que nos delírios caleidoscópios e vibrantes de Argento e Bava - ou na sordidez doentia do Fulci. A trama sólida - que, acredite se quiser, o Kubrick parece copiado na cara dura para seu  “De Olhos Bem Fechados” - envolve principalmente por um truque espertinho da narrativa que, sem entrar em muitos detalhes, se encerra num dos finais mais desoladores e traumáticos do suspense europeu.

terça-feira, 4 de abril de 2023

O Chicote e o Corpo (La Frusta e il Corpo) - 1963

Sinopse: Em um decadente castelo no interior da Rússia (onde estranhamente todos falam italiano), condessa é assombrada pelo fantasma de seu cunhado, o Conde Meliff (Lee), com quem mantinha um relacionamento sadomasoquista.

Direção: Mario Bava

Elenco: Daliah Lavi
Christopher Lee
Tony Kendall
Evelyn Stewart
Harriet Medin







Download:




Comentário: É o mestre Bava no auge da sua forma, pré-giallo e pós-Hammer. É uma de suas obras quintessenciais (diz Lee ser o filme favorito em que atuou), entrega o que se espera na exuberância visual e inventividade técnica, e também o que se espera da trama esculhambada e melodramática - apesar de aqui ser um pouco mais perversa que o restante de sua filmografia. É também um pináculo da pilantragem dos italianos, aqui inovando ao adotarem todos nomes anglófilos na esperança de enganarem o público americano, fazendo-os pensar que tratava-se de um lançamento da Hammer. Enfim, horror gótico dos bons.

terça-feira, 14 de março de 2023

Laurin - 1989

Sinopse: Interior da Alemanha, virada do século XIX. Lurin, uma menina solitária, começa a ter sonhos e visões aterrorizantes que prenunciam uma tragédia violenta. Logo, crianças começam a desaparecer e apenas ela pode deter o responsável.

Direção: Robert Sigl

Elenco: Dóra Szinetár
Brigitte Karner
Károly Eperjes
Hédi Temessy
Barnabás Tóth







Download:

 
 

Comentário: É aquele terror-não-terror com crianças de sempre (onde acontecimentos brutais e complexos são ressignificados pela ótica da criança na sua suposta inocência). É eficiente na sua estrutura de slow-burn onírico: começa com crianças ceifadas, as visões de Laurin prenunciando futuras desgraças e a câmera sempre nos mostrando aquele prego exposto na escada do sótão... Para bom entendedor meia palavra basta e a trama aqui se torna óbvia - de morte em morte sabemos que a punição final se dará naquele prego, mas a graça são os sonhos que fazemos pelo caminho. À parte da sua atmosfera convincente, "Laurin" se sobressai pela intensidade melancólica do fatalismo da narrativa. Também é bem curto e tem padre se ferrando.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Os Sete Gatinhos - 1980

Sinopse: Noronha é funcionário público e patriarca de uma família de seis. Cidadão exemplar, ele complementa a renda doméstica prostituindo suas filhas, na esperança de dar uma vida luxuosa à caçula da família - por quem nutre intensas fantasias incestuosos. Uma crise se instala, porém, quando a jovem é expulsa de um internato por mutilar uma gatinha de rua e seus filhotes. Noronha passa a suspeitar que o objeto de seus desejos possa não ser mais virgem, e consequências violentas se avizinham quando alguém começa a desenhar pirocas com asas nas paredes do banheiro da casa.

Direção: Neville d'Almeida

Elenco: Lima Duarte
Antônio Fagundes
Ana Maria Magalhães
Ary Fontoura
Regina Casé
Luiz Fernando Guimarães

Download:

 
Opção 2 (link alternativo do mesmo release)


Comentário: Já recomendamos muitos filmes desprezíveis aqui no blog, como vocês bem sabem. Desde sanguinoleiras francesas, escrotices chinesas, várzeas italianas, putaria japonesa... pois não há nada de ruim que outros países não façam que nós, brasileiros, não possamos fazer pior. Baseado na peça de Nelson Rodrigues, "Os Sete Gatinhos" é possivelmente um dos filmes mais doentios, grotescos e desagradáveis já queimados em celuloide. 
     O asco se instaura quase que imediatamente no espectador, mas tal qual ao passar por um acidente de carro ou ocorrência policial, se torna impossível desviar os olhos a cada novo e inacreditável desdobramento da narrativa. Não é tanto pelo enredo, que é recorrente nas peças do Rodrigues e suas respectivas adaptações (inclusive recomendo entusiasticamente o "Bonitinha, Mas Ordinária" de 1981, que tem essa cena maravilhosa), mas pelo tom; a estrutura é disciplinada (mesmo que surtada e febril), enquanto todo o resto é tão frontalmente agressivo, ofensivo, subversivo - aliás eu raramente uso esse termo - e não apologético que a repugnância chega a se converter em admiração. Cada cena acrescenta uma nova dimensão de perversão, e a somatória caminha de forma lenta e segura para a aniquilação da família enquanto instituição. Sempre foi fácil retratar os burgueses como os monstros, mas aqui se desmascara o populacho mesmo, o horror que se esconde nos lares da classe trabalhadora, entre os filtros de barro e as inquebráveis duralex. Mesmo que o aspecto satírico seja escancarado (por trás de toda família vestindo camisa da seleção brasileira se escondem as mais abjetas das depravações), Neville conduz suas personagens de forma tão realista que tudo se torna imediatamente crível, até em seus momentos mais absurdos - isso em grande parte graças à interpretação do Lima Duarte, que é uma das mais hipnóticas e memoráveis do cinema nacional (apesar de né, a competição ser quase inexistente).
    Para o leitor que vorazmente consome enlatados - metafóricos e literais -, "Os Sete Gatinhos" é uma acolhedora refeição caseira, do jeito que só a mamãe sabe fazer.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

O Vidente Misterioso (Man on a Swing) - 1974


Sinopse: Detetive investiga assassinato brutal de uma jovem em cidadezinha do interior dos EUA. Sem nenhuma pista, ele é abordado por um suposto vidente que, disposto a ajudar, fornece informações de conhecimento exclusivo da polícia. O detetive então se torna obcecado em descobrir se ele obteve essas informações por ser o próprio assassino. Esse título brasileiro é pra fuder.

Direção: Frank Perry

Elenco: Cliff Robertson
Joel Grey
Dorothy Tristan
Elizabeth Wilson
George Voskovec





Download:




Comentário: Não chega a ser um slow burn porque é lento do começo ao fim, mas "Man on a Swing" é um horror psicológico de primeira e, ouso dizer aqui algo que jamais falei antes: é um daqueles que definitivamente serviu de inspiração pro Fincher. Isso porque o assassinato é o mero detalhe que conecta o detetive Tucker, talvez o mais estoico e contido da história do cinema, ao vidente (não digo "falso" vidente porque isso evidentemente implicaria na existência de um verdadeiro) Joel Grey, flamboyant e, err, misterioso da primeira à última cena. É do atrito dessas duas forças - o racionalismo cartesiano inflexível da lógica policial e a mediunidade vaga e inexplicável - que se ancora a narrativa, cujo final inquietante é de gelar a espinha justamente por sua ambiguidade dolorosa. "Man on a Swing" é um filme policial mínimo em seus elementos, conduzido de forma enigmática com toda aquela estética crua da Nova Hollywood, pequeno eficiente e até mesmo memorável.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Last Ghost Standing (Gwai Ching Lei Tai Hei) – 1999

Sinopse: Na véspera do Ano Novo de 2000, um cinema tem sua última sessão. Coisas estranhas ocorrem quando forças malignas ficam insatisfeitas com a qualidade dos filmes modernos.


Direção: Siu-Hung Chung


Elenco: Simon Lui, Sherming Yiu, Francis Ng, Pinky Cheung









Download


Link Direto (Legenda Exclusiva)


Comentário: O que sempre chamou a atenção e me tornou devoto do cinema de Hong Kong foram sua energia e criatividade. Não importa o gênero ou dinheiro envolvido, sempre haverá algo, seja numa mísera cena ou alguma mudança de tom brusca gigantesca... a certeza invariável é de iminentemente bater uma empolgação que supera qualquer filme realizado em qualquer outra parte do mundo. 
Obviamente que mesmo uma produção de baixo orçamento como essa, em uma locação com equipe pequena de amigos, iria fazer minha cabeça, porque simplesmente transborda de energia hongkonguiana da qual sou submisso, mesmo praticamente não possuindo um enredo e apostando num humor extremamente juvenil. O encantamento que esse proporciona é o de ser espancado incessantemente por tudo que é jogado na nossa cara a cada segundo. Para ter uma noção do que estamos lidando, digamos que a introdução transpira ares poéticos dignos de Wong Kar-Wai, e esse tom progressivamente vai ser distorcido a ponto de surgir um sósia do Jackie Chan caçador de fantasmas.

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

A Ilha das Almas Selvagens (Island of Lost Souls) - 1932

Sinopse: Náufrago acaba em ilha habitada por monstruosidades, híbridos entre humanos e animais criados pelo maligno Dr. Moreau. Adaptação do clássico de H. G. Wells, mas bastante superior a este porque, ao contrário do romance, aqui tem uma gostosa.

Direção: Erle C. Kanton

Elenco: Charles Laughton
Richard Arlen
Leila Hyams
Bela Lugosi
Kathleen Burke







Download:
 
 


Comentário: Não consigo me imaginar como espectador na década de 1930, mas se naquela época o pessoal se cagou achando que o trem ia sair da tela no filme dos Lumiére, deve ter rolado desmaios e ataques cardíacos na sessões da "Ilha das Almas Selvagens" porque essa porra se mantém genuinamente aterrorizante até para os padrões modernos. Nada de sustos explícitos e essas merdas, mas o visual das criaturas (para os ignorantes que nunca leram a obra seminal do Welles, animais selvagens mutilados e condicionados violentamente até tornarem-se humanoides) choca pelo grotesco, somando-se também seus sons - cuidadosamente elaborados misturando, invertendo e distorcendo grunhidos de animais com dialetos nativos -, que resultam em uma sensação desconcertante.
    As situações e como é organizada a sociedade das aberrações são fiéis ao livro, com a bem-vinda exceção da Mulher-Leopardo. Você pode evidentemente imaginar que ela foi concebida enquanto apelação rasteira para atrair o público masculino, mas, intencionalmente ou não, sua presença adiciona uma nova dimensão às provocações originalmente propostas por Wells. Excluindo a frescuragem vitoriana, esse elemento voluptuoso (o plano do Moreau é fazer o protagonista transar com a dita cuja, com a intenção de provar ser capaz de criar um ser humano completo, ou seja, que sinta até tesão - pois é -, enquanto paralelamente induz o Homem Gorila a estuprar a mocinha com o mesmo intento) aproxima o debate sobre ética científica da sórdida realidade mundana, muito mais mesquinha que qualquer autor poderia supor. Não à toa, esse foi um dos primeiros filmes banidos e censurados mundo à fora, sendo vetada sua exibição nos cinemas suecos até hoje, por exemplo. Tamanha repercussão levou à elaboração do infame Código Hays, que moralizou o cinema norte-americano até a década de 1960.
    Além do elemento sexual, a obra também se eleva sobre a narrativa de Wells pela presença do Charles Laughton, cuja interpretação hipnótica enche os olhos, esbanjando carisma e alegria em ser um filho da puta - tornando-o facilmente um dos maiores vilões da história do horror. Ah, e tudo isso tem só 1h10min de duração.


PS: "A Ilha das Almas Selvagens" foi a primeira de dezenas de adaptações da "Ilha do Dr. Moreau" - e também a única boa - mas essa é mais uma oportunidade de recomendar o documentário "Lost Soul - The Doomed Journey of Richard Stanley's Island of Dr. Moreau", sobre um dos fracassos mais espetaculares e fascinantes dessa coisa que chamamos de arte.